Escrever para mim é um desafio. Primeiro, porque há o estigma de que, quem tem formação em engenharia não sabe escrever. Segundo, porque convivo há muitos anos com aquela voz interna que cochicha no meu ouvido “desista enquanto é tempo Aline! O que você quer escrever é uma uma grande besteira! Nunca vai ser publicado porque está fora da norma acadêmica e sua opinião é irrelevante”.

Um dia, tive um grande alívio ao ler um texto da Virgínia Wolf, em que ela dizia que essa voz tem um nome e chama-se “o anjo do lar”. É um velho fantasma, de uma mulher doce e gentil que como uma sombra, a impedia de escrever e ter opinião própria. Um dia, ela decide exterminar este anjo para que sua voz pudesse ser ouvida, e sua escrita pudesse se fazer valer.

Às vésperas do dia internacional da mulher, este texto que escrevo é a prova do meu delito. Após muito afrontar este anjo que me rondava, consigo descobrir e estabelecer para mim mesma que não posso mais ser silenciada, nem por mim e nem pela opinião de ninguém. E estou muito feliz por ter sido acolhida aqui nesta coluna para organizar minha forma de expressão.

Por que uma engenheira decidiu fazer uma formação em antropologia da mulher? E o que é isso?

Um dia, passei por uma situação que me causou tanto constrangimento, que fiquei aos prantos e fui direto para o consultório da minha psicóloga. Ao final da sessão, ela me falou: “você está precisando escutar a voz de outras mulheres. Haverá uma nova turma em breve. Venha, participe do primeiro encontro, vai te aliviar”. E desde o primeiro encontro, eu me encantei, e hoje depois de quase dois anos, em breve me formarei nesta pós-graduação, em Antropologia da Mulher e Ecofeminismo, pelo Instituto Renascer da Consciência em Belo Horizonte.

Escutar as vozes de outras mulheres e entrar no universo do feminino me ajudou a compreender quem sou eu enquanto mulher e o universo ao meu redor. Aprendi que não sou “instável” e “de lua” como já me falaram, muito pelo contrário, sou cíclica e mutante como a lua. Ufa, que alívio! E que sacada genial, Batman! Porque ninguém me contou que ficaria muito mais fácil gravar a data da minha menstruação pelo calendário lunar?

A antropologia abre caminho para uma viagem histórica pelas sociedades antigas (chamadas ginocêntricas), aonde as mulheres tinham um papel central em seu funcionamento. Perpassa temas como a saúde da mulher e sua relação com a natureza, a jornada da heroína, os arquétipos das deusas, ancestralidade, e por ai vai. Aborda também assuntos densos, como a violência de gênero, muitas vezes simbólica e sutil, a qual vivenciamos em nosso dia a dia.

Temas fáceis, difíceis, doídos, mas sem “escorrer sangue”. Sem vitimismo ou distorção que muitas vezes se vê nos radicalismos e discursos de ódio da contemporaneidade. Não!!!! Todas nós unidas em um círculo, apoiando-nos para um entendimento maior sobre nossas questões. Expressando nossas emoções – dentre elas a raiva, como uma forma de exteriorizar situações de opressão e abuso, mas com muito amor, compreensão e respeito.

Na nossa turma, as formações são heterogêneas e nossas causas são singulares. Eu sou engenheira e fascinada pelo tema do teto de vidro (presença rarefeita de mulheres em posições da alta gestão das empresas), uma colega é psicóloga que trata mulheres vítimas de violência, minha querida companheira de quarto que é sexóloga, outra usa a arte como forma de terapia para crianças e por aí vamos.

Desta experiência da antropologia enquanto uma questão da mulher, venho aprendendo que o universo feminino é como um caledoscópio multifacetado e com diferentes visões. Dentro dele, estamos nós mulheres, e que a medida em que nos unirmos, nos aceitarmos e respeitarmos nossas diferenças, entraremos em uma nova lógica de se viver. Esta proposta, que a filósofa mexicana Marcela Lagarde conceitua como “sororidade”, é um princípio basilar de uma democracia entre as mulheres e para as mulheres para tornarmos nossas vidas e o mundo ao redor um lugar melhor para se viver.

Descanse em paz, meu anjo do lar. E que venha “essa nova mulher de dentro de mim, sem medo das sombras e livre para o amor”, como diz uma linda canção.

 

Aline Rabelo Assis

Engenheira civil que atua há mais de 15 anos em desenvolvimento de concessões de infraestrutura no Brasil, além de professora universitária e educadora. Atualmente vivendo em Florianópolis para a implantação do novo terminal do Aeroporto Hercílio Luz. Descobrindo novos territórios no universo do feminino para conviver melhor no ambiente da patriarcalidade corporativa.