Velha é a vó!

Por: Valter Ostermann

Para nós, meninos ainda bem meninos, a vó da gente era velha. Podia ser bonita, sim, que toda avó é, mas era velha. Para elas, as avós daquele tempo, cinquenta anos era o limite. Vestiam-se sobriamente, não ousavam ter a menor ousadia, avó tinha que ser matrona, respeitável. Pó de arroz e água de colônia, no máximo. Para ir à missa. De véu!

Usavam coque, que para nós, meninos ainda bem meninos, era penteado de velha. Assim foi a geração de minhas avós, e de minha mãe, e de minhas tias…
Hoje, quando já não sou mais menino bem menino, virei menino adulto, percebo quanta vida jogaram fora, por renúncia.
A moral hipócrita daqueles tempos em que os cinquentões tinham que ter cadeira de balanço e as cinquentonas não podiam ter atrativos, ou melhor, tinham que escondê-los, exigia a antecipação do fim dos prazeres. Moral católica, que nos carregava de culpas sem desculpas. Leva tempo para livrar-se do jugo.
Livrei-me. Minha geração inteira está livre, ou quase toda. Mulheres de cinquenta, agora, são mulheres. Plenas, bonitas, atraentes, cheirosas, gostosas. Aprenderam que o nome do jogo é ser feliz, sem jugo e imposições, a vida está aí para ser curtida. Prazer não é pecado. Rir não é pecado. Desejo também não.
Vivi duas épocas, duas realidades, a atual é a melhor. Elas, as mulheres de minha geração, concordam. São mães, avós e jovens. Muitas continuarão jovens até o fim, já que agora aprenderam que envelhecer é uma opção.

Velha é a vó. A tua!

 

Retalhos do Amor Maduro, Destinado à Mulher Madura!

Erich Fromm afirmou que “o amor imaturo diz: te amo porque preciso de você, o amor maduro diz: preciso de você porque te amo”. É uma diferença e tanto. Amar porque precisa. Precisar porque ama. Somos sinceros o suficiente para reconhecer os momentos em que o precisar nos faz amar? Somo humildes o suficientes para declarar o quanto precisamos daquilo/daqueles que amamos?

Clarice Lispector não é tão otimista, ao falar de amor. Ou talvez ela o seja. Bem, entre outras coisas, ela disse que “ninguém é maduro quando se trata de amor”. Contudo, notem o sutil deslocamento em relação ao sujeito. Em Erich, é o amor que é maduro ou imaturo. Já em Clarice, é ninguém. Retificando: Clarice só não leva muita fé em nossa maturidade, ao menos quando se trata de amor…

Clarice costuma estar certa. Na mesma direção a acompanha Martha Medeiros. Vejam que bela descrição ela faz da mulher madura:
“Sou uma mulher madura
Que às vezes anda de balanço
Sou uma criança insegura
Que às vezes usa salto alto
Sou uma mulher que balança
Sou uma criança que atura”

Mesmo assim, parece que não estamos sendo muito corretos em relação ao valor do tempo, da experiência. Uma coisa é brincar de balanço aos quinze anos. Outra, bem diferente, é brincar de balanço aos cinquenta. Onde acompanhamos Affonso Romano de Sant’Anna, quando ele afirma que “sobretudo, o primeiro namorado ou o primeiro marido não sabem o que perderam em não esperá-la madurar. Ali está uma mulher madura, mais que nunca pronta para quem a souber amar”. Quantos homens sabem ou souberam esperar? Resposta: praticamente nenhum. É só nos darmos conta da quantidade quase absoluta de primeiros namorados ou maridos. Pouquíssimos são ou foram o ‘único’. Até aí, tudo bem. Ou, ao menos, na média. Mas quantos sabem amar esta mulher que agora está pronta como nunca? Quantos estão em condições de convida-la para brincar de balanço?
Uma questão final. Isso que acabamos de ler é mesmo um texto? Ou é uma colcha de retalhos de citações? Neste caso, acompanho Anuska Nardelli, pois parece que com os pensamentos é sempre assim: “em retalhos, são só detalhes. Em conjunto, podem cobrir o mundo”.

Autor: Marcelo Rodrigo Campos
Autor: Marcelo Rodrigo Campos